quinta-feira, 20 de abril de 2017

Arborizar é um componente da paisagem urbana

Arborizar é um componente da paisagem urbana
Autor: José Alberto Tostes

                    O desenvolvimento de Macapá demonstra, que por décadas tem sido acentuado o crescimento horizontal da cidade. E qual a relação desse processo com as áreas verdes e arborização? Muito embora, o estado do Amapá seja considerado um dos mais preservados em sua camada vegetal, as cidades apresentam pouca ou reduzida arborização, bem como a diminuição das chamadas áreas verdes. E quais os motivos para tal fato? O primeiro item a ser considerado é a característica do lugar. A cidade de Macapá é um “corpo” hídrico, formado por lagos, igarapés, rios e ressacas que formam um conjunto que auxilia e contribui entre outras coisas, com o equilíbrio do microclima e das condições de controle das bacias naturais, fato que vem sendo prejudicado com a ocupação gradual das chamadas áreas úmidas.
                     A redução de áreas verdes também está relacionada aos investimentos realizados nos últimos trinta anos, pouca respeita-se o que está previsto na legislação urbana e ambiental, após a implementação desses empreendimentos, tais áreas são ocupadas sem que ocorra qualquer tipo de ação mais efetiva por parte do poder público. O traçado urbano após a implantação do Território Federal do Amapá também contribuiu para acelerar a perda de vegetação, se derrubava a vegetação nativa para abrir ruas e vias, sem nenhuma preocupação com qualquer tipo de preservação ou manutenção.
                     No final dos anos de 1950, a CEA – Companhia de Eletricidade do Amapá elaborou um diagnóstico onde a principal preocupação se dava com as inúmeras arvores nas vias urbanas, condicionava a rede de energia elétrica. O fato positivo desse acontecimento foi a contração da Empresa Grumbilf do Brasil, no ano de 1959. Entre as recomendações da Grumbilf, destacava-se dois aspectos importantes: primeiro a necessidade de preservar os “pulmões verdes”, as chamadas ressacas e a segunda de realizar um registro de todos os tipos arbóreos já existentes para que fossem melhor analisados os processos de poda e desenvolvimento das arvores.
                     Durante a criação do Território Federal do Amapá, a cidade de Macapá experimentou através do traçado delineado um bom número de lotes com dimensões de 15 por 30 e outros de 20 por 50 o que possibilitou para muitas famílias plantarem diversos tipos de arvores nos quintais, todas arvores frutíferas. As espécies plantadas eram de mangueiras, jambeiros, castanholas, graviolas, entre outras. Na região onde hoje, localiza-se o bairro do Buritizal havia várias espécies de Buritizeiros que formatavam uma paisagem distinta para o local.
                    Deve-se ressaltar que a influência para plantação de arvores frutíferas nos quintais das casas estavam relacionadas as tradições de famílias oriundas de vários interiores do estado do Pará, facilitando assim, o plantio das espécies. Os estudos técnicos evidenciam, que mesmo as arvores frutíferas plantadas em quintais contribuem de sobremaneira para as condições de conforto e melhoria do clima. A preocupação primeira da CEA em resolver os problemas da Poda não foi equacionado e com o passar do tempo e com o desenvolvimento da cidade nos eixos sul e norte, acentuou o problema.
                   Com a abertura de novos conjuntos habitacionais, loteamentos e a construção de novos edifícios, contribuiu para o aumento do adensamento, sem, todavia, crescer na mesma proporção as áreas verdes e os investimentos em arborização. Pelo contrário, quando se compara imagens de satélites da década de 1960 com as condições atuais, verifica-se que as perdas foram consideráveis. As reservas de áreas verdes estão concentradas na orla do rio Amazonas e nos limites da Rodovia JK entre Macapá e Santana em uma faixa de mais de vinte quilômetros, às margens das ressacas, além das áreas expressivas do Exército e da Infraero.
                    As arborizações existentes nas vias públicas são basicamente em grande número de mangueiras que no período da safra de mangas ocasionam grandes danos materiais, muito embora, atendam às necessidades de diversas famílias carentes.  Os anos se passaram, o que se vê na cidade são arvores mutiladas, gerando um prejuízo da função de sombreamento e conforto climático. Além desses fatores, a falta de cuidado com a preservação e manutenção das arvores ocasionou danos também nas calçadas já existentes em condições precárias.
                  Nos últimos três anos, vislumbrou-se a elaboração de um Plano de Arborização para cidade de Macapá para atender de forma mais adequada a necessidade de melhores condições de conforto climático. Esse tema tem que ser visto com muita serenidade, pois temos que levar em conta duas situações para serem avaliadas: a primeira, refere-se a forma como deverá ser concebida o tratamento das arvores já existentes no perímetro urbano central; e a segunda, as áreas completamente desprovidas de qualquer tipo de arborização, principalmente na zona norte da cidade.
                  O problema não reside em somente elaborar, guias e manuais, mas está no entendimento do que significa de forma sistêmica para cidade, manter a arborização existente e planejar arborização que deverá ser implementada em áreas desprovidas. Outro fator, é a relação com o planejamento urbano da cidade. Todo material técnico precisa dialogar com o lugar, se não, se torna mais um instrumento que não serve para nada.  Quando a CEA contratou a Grumbilf em 1959, visava dar um direcionamento técnico, se passaram mais cinco décadas e a lição não foi aprendida. A história está para ser analisada e não repetida, no que se refere aos fins a serem obtidos.
                 O verde não tem sido priorizado, a cidade está ficando cada vez mais adensada, as condições de conforto adversa com o uso excessivo de materiais que absorvem muito mais calor, como a pavimentação asfáltica, as ressacas estão sendo aterradas e as faixas verdes paralelas ao rio Amazonas estão seriamente ameaçadas pelos empreendimentos do capital voraz. Deve-se entender que arborização é um componente da paisagem urbana, não um elemento isolado. Precisa-se de todos os estudos e análises compatíveis para se vislumbrar uma cidade mais saudável no futuro.

                   

2 comentários:

  1. O verde não tem sido priorizado, a cidade está ficando cada vez mais adensada, as condições de conforto adversa com o uso excessivo de materiais que absorvem muito mais calor, como a pavimentação asfáltica, as ressacas estão sendo aterradas e as faixas verdes paralelas ao rio Amazonas estão seriamente ameaçadas pelos empreendimentos do capital voraz. Deve-se entender que arborização é um componente da paisagem urbana, não um elemento isolado. Precisa-se de todos os estudos e análises compatíveis para se vislumbrar uma cidade mais saudável no futuro.

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  2. As espécies utilizadas na arborização da cidade, a maioria não é adequada. Tivemos uma época onde, por falta de um plano diretor de arborização, muitas mudas de ficus foram plantadas. As mangueiras são lindas, mas inimigas da limpeza urbana e delimitadoras dos já tão escassos espaços para estacionamento.
    Sem falar que foram plantadas paralelamente a linha de energia. Nesses locais as árvores são mutiladas, pois a rede passa dentro da copa das mesmas.
    Também já vi várias árvores mortas durante muito tempo, até q um dia são retiradas, mas não são substituídas.
    Muitos moradores retiram parte da casca para matar a árvore, Porque não querem "sujeira" ou "moleques" na frente de suas casas. Derrubam e não replantam.
    A prefeitura já produziu mudas e algum tempo atrás incentivava os munícipes a plantar, doando espécies, inclusive para plantio em quintais. Hoje, não vemos mais isso, apesar de estar sendo noticiado q teremos um evento (congresso?) Nacional de arborização aqui em Macapá este ano. Tomara que isso produza frutos. Sem árvores não há sombra e nem passarinhos!

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